Resolução de Ano Novo – O que é que Benjamin Franklin tem a ver com a ampulheta?

Sempre que se inicia um novo ano, jorram as dicas para melhorar a produtividade pessoal e a gestão do tempo nos doze meses seguintes. Benjamin Franklin foi um entusiástico proponente e um angustiado praticante.

2017-01-02-benjamin-franklin-ampulhetaO dealbar do Novo Ano é para muitas pessoas uma ocasião de balanço e de formulação de objetivos e intenções de aperfeiçoamento: as famosas “Resoluções de Ano Novo”, que nalguns casos bem poderiam chamar-se revoluções de Ano Novo, tal a ambição das mudanças almejadas.

Entre elas, quiçá maioritariamente, costumam evidenciar-se as que se relacionam com o uso do tempo, esse bem tão precioso que o tempo passado em família durante a Quadra Festiva, em contraste com a azáfama do resto do ano, nos faz valorizar ainda mais.

O ensejo não passa despercebido aos media, que aproveitam para publicar umas colunas dedicadas ao tema, certos de que estas captarão a atenção dos leitores. Para assinalar o início do ano e o meu regresso à publicação, trago algumas ideias retiradas de uns quantos artigos – uns mais recentes do que outros – com opiniões de supostos especialistas na matéria, que mostram a que ponto elas estão longe do consenso.

A forma de lidar com a sobrecarga de informação produzida pelos novos media – a tech overload, para  usar um vocabulário mais trendy – parece ser o tema quente do momento. Há toda uma nova escola de pensamento que advoga uma dieta de privação de informação como defesa contra as distrações e condição fundamental para conseguirmos concentrar-nos. Outros vão mais longe, e juntam-lhe a privação de estímulos visuais: nada de mesas de trabalho atravancadas, nem de paredes forradas de livros, de quadros ou de outras decorações; tudo isso é ruído e fonte de distração. Uma mesa limpa e paredes nuas são fundamentais para focalizar as ideias.

Como é evidente, a convicção central destes autores é de que a capacidade de concentração é a chave do sucesso em toda e qualquer atividade a que nos dediquemos.

Uma outra tendência, de certo modo relacionada com as duas anteriores mas muito mais antiga, advoga uma abordagem racional, baseada numa filtragem draconiana das nossas prioridades. Quais são os nossos objetivos fundamentais? Atenção: não podem ser muitos! Nada de escolher 15 ou 20, temos de ficar-nos por 2 ou ou 3, sob pena de nos dispersarmos e de não concretizarmos nenhum. E, se esses objetivos forem de facto ambiciosos, temos de os “partir às fatias”, decompô-los em etapas cujo cumprimento seja exequível dentro de limites razoáveis de tempo e de esforço.

Comum àquelas três correntes, jaz a velha crença cartesiana na ordem e na razão. “Que todas as coisas ocupem os respetivos lugares; e que todas as partes da nossa atividade ocupem o seu tempo próprio”, escrevia no século XVIII Benjamin Franklin, um precursor da gestão de tempo e um entusiasta daquele paradigma. (Pelo menos no plano das ideias, pois na prática a realidade era bem diferente…)

Não ocorre àqueles autores que, em determinadas atividades ou para determinados fins, a vantagem pode estar justamente no oposto: em deixarmo-nos inundar por informações desconexas, assaltar por estímulos desgarrados e contraditórios, e abandonar a nossa mente à vadiagem – que é de onde nasce a maioria das ideias inovadoras. Outras vezes, pode mesmo justificar-se forçar a introdução de desordem no processo. A forma como Brian Eno (o podutor), com as suas cartas Oblique Strategies,  semeou o caos no estúdio durante a gravação dos álbuns da “fase de Berlim” de David Bowie, narrada por Tim Harford no seu mais recente livro Messy: how to be creative and resilient in a tidy-minded world, é um exemplo lendário daquele princípio.

Mas enfim, embora organização pessoal e criatividade se sobreponham numa extensa área, não podem ser confundidas uma com a outra, e o tema deste artigo é a primeira. Fica, em relação a ela, a noção de que a concentração não é tudo e que as estratégias que a privilegiam são necessariamente redutoras.

Uma outra moda é acordar cedo. Parece que Barack Obama é um adepto, o que certamente terá contribuído para a sua popularidade (da moda, não de Obama). Veremos o que fará Donald Trump… É verdade que já as minhas avós diziam que “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”, mas devo confessar que eram omissas quanto ao efeito deste hábito na produtividade pessoal. O curioso é que os defensores deste princípio não parecem entender-se quanto às vantagens exatas do método: para uns, o despertar deve ser um momento de relaxamento ou mesmo de meditação; para outros, de exercício físico; para outros ainda, um “tempo de qualidade” com a família (que assim, coitada, se vê submetida ao mesmo regime madrugador); e por fim, para dedicar às tarefas mais importantes e que requerem maior concentração (aí está ela de novo!) enquanto estamos frescos – em oposição aos que defendem que as devemos fazer quando estamos cansados, porque é quando somos mais criativos. E se nos primeiros ainda é possível discernir o traço comum de que se trata de um tempo não diretamente produtivo mas sim, por assim dizer, de “aquecimento do motor”, para os últimos é logo para começar a rolar… Outro pomo de discórdia é o impacto no tempo de sono: é certo que a maioria defende que acordar cedo deve ser compensado por deitar-se mais cedo, mas sempre há quem argumente que uma horita a menos durante a noite pode ser substituída por uma sesta de 15 minutos no escritório (posso testemunhar que estes power naps funcionam, mas num open space são capazes de dar nas vistas…).

Há também uma controvérsia interessante à volta das listas de tarefas – as to do lists dos anglófonos. Há quem as defenda intransigentemente e há quem diga que elas são um espartilho que nos retira a flexibilidade para nos adaptarmos aos imprevistos que todos os dias acontecem. Mas a ideia mais interessante é de que, mais do que listas de coisas “a fazer”, devíamos escrever listas das coisas “feitas”, pois é muito mais motivador e menos estressante manter um registo dos nossos sucessos do que daquilo que ainda não conseguimos realizar. Bem, não creio que uma coisa dispense a outra, mas consigo entender o valor do pensamento positivo.

E então? Em que ficamos?

Creio que duas conclusões se impõem. A primeira é de que estamos perante um domínio que ainda está muito longe de conseguir credenciais científicas. Muitas das ideias, das práticas e das “receitas” que vão surgindo tomam por base a experiência pessoal dos seus autores, ou mesmo preferências ideológicas (no sentido lato) nem sequer confirmadas no plano individual. Não têm uma base empírica consistente e caem no erro de generalizar soluções particulares para uma aplicação universal que não tem em conta as diferenças entre indivíduos ou grupos de indivíduos. Só assim se explica que os defensores dos regimes madrugadores ignorem, surpreendentemente, as diferenças de ritmos circadianos – essas sim, com base empírica estabelecida – e partam do princípio de que somos todos “cotovias” num mundo sem “corujas”.

A segunda é de que, mais do que aumentar a nossa produtividade, estes métodos servem para nos dar a sensação de que temos um maior controlo sobre as nossas vidas e, por essa via, para reduzir a nossa ansiedade. É bem possível que isto, só por si, tenha um efeito positivo sobre a produtividade, o que é certamente bem-vindo. Mas nesse caso, o que verdadeiramente importa não é tanto o método em si como o seu alinhamento com as nossas preferências.

Benjamin Franlin nunca conseguiu ter uma mesa arrumada, e isso tê-lo-á talvez angustiado, mas não consta que lhe tenha causado especial infelicidade ou improdutividade: estava demasiado ocupado a inventar não a ampulheta, mas o para-raios e as lentes bifocais, ou a servir como primeiro Correio-Mor e embaixador em França da nóvel União. Uma mesa arrumada não o teria feito ficar na História.

Em resumo: toca a experimentar. Tentem um e outro método, vejam com qual se sentem melhor, percebam qual deles vos dá – pelo menos na aparência – um maior controlo sobre as vossas atividades profissionais e pessoais, que permita equilibrar melhor trabalho e lazer, carreira e vida familiar. E quando não estiverem contentes, experimentem outro (frango assado todos os dias também cansa).

Pode ser um qualquer – desde que vos faça felizes em 2017!

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