Livro da Semana – “Doing the Right Things Right: How the Effective Executive Spends Time” (Stack, L., 2016)

20161009-laura-stack-dtrtrO gestor do século XXI tem não só de “fazer as coisas certas”, mas também de as fazer depressa e bem, sob pena de ser rapidamente ultrapassado pela velocidade da mudança.

Peter Drucker dispensa apresentações: unanimemente considerado o mais influente pensador no domínio da gestão, inventor de práticas e conceitos como a gestão por objetivos, o trabalho do conhecimento, o outsourcing e muitos outros, visionário da sociedade e da economia do século XXI, as suas ideias continuarão a orientar-nos por muitos anos após o seu desaparecimento em 2005.

20161009-drucker-effective-executiveDe entre as quase quatro dezenas de livros que escreveu, The Effective Executive (O Gerente Eficaz), publicado em 1967, foi um dos que maior impacto tiveram. Nele, Drucker recordava que a marca do gestor eficaz não é fazer as coisas bem feitas (eficiência), mas fazer o que deve ser feito (eficácia); ou melhor, tendo em conta que ser gestor é também ser líder, fazer com que seja feito o que deve ser feito. Ficou célebre a sua afirmação de que  “não há nada tão inútil como fazer bem aquilo que não precisa de ser feito”.

Para não perder de vista aquela obrigação, o gestor eficaz devia ser capaz de dominar cinco práticas essenciais:

  • Identificar e comunicar corretamente as prioridades (visão estratégica)
  • Mobilizar e concentrar esforços nos pontos mais importantes e nos momentos certos (alocação de recursos)
  • Desenvolver e reforçar as práticas de negócio que criam valor (capacidade organizacional)
  • Gerir bem o tempo
  • Ligar e coordenar as práticas anteriores por meio de uma tomada de decisões lúcida e racional

Dificilmente podemos discordar da bondade destes conselhos e da importância que conservam ainda hoje, quase meio século após a sua divulgação. Todavia, o mundo mudou. E se essa mudança não põe em causa a essência da visão de Peter Drucker sobre a missão do gestor, a forma como aquelas práticas podem materializar-se na segunda década do século XXI, tão diferente em tantos domínios dos anos 1960, é inevitavelmente muito diferente e merece um escrutínio atento.

Foi esta preocupação que inspirou Laura Stack, a escrever o presente Livro da Semana, Doing the Right Things Right: criar uma espécie de “Drucker hoje”, um guia atualizado das ideias do grande pensador se tivesse tido de enfrentar as grandes transformações que assinalaram este meio século: a revolução das tecnologias da informação, a globalização, a ascensão (ainda que incompleta) das mulheres ao topo das organizações, para citar apenas três.

A tese principal da Laura Stack é de que nos dias de hoje o gestor tem também de ser eficiente: se não conseguir “fazer as coisas certas” dispendendo o mínimo de tempo, de esforço e de outros recursos, rapidamente será ultrapassado pela veloz sucessão de acontecimentos. Podemos ver nisto um desvio das ideias de Drucker, que colocava a eficácia claramente acima da eficiência, mas na realidade tal desvio é apenas aparente: não esqueçamos a importância que Drucker atribuía à gestão do tempo, à correta alocação de recursos e ao desenvolvimento das capacidades organizacionais – todas elas condições indispensáveis da eficiência.

Para otimizar esta interseção entre a eficácia e a eficiência, a autora propõe o seu modelo 3T de liderança, que contempla doze domínios de gestão agrupadas em três grandes setores – os “três Ts”, correspondendo às iniciais das respetivas designações em inglês: Strategic Thinking, Team Focus e Tactical Work. Estes três setores e os doze domínios subdividem-se ainda em 36 práticas concretas.

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Um ponto forte do livro é o questionário de autoavaliação que nos ajuda a identificar os nossos pontos fortes e fracos em relação a cada um daqueles itens. Uma vez completado este autodiagnóstico, podemos dirigir-nos de imediato aos capítulos que nos interessam, em vez de sermos obrigados a ler todo o livro sequencialmente. Ou então, se preferirmos, podemos começar por obter uma perspetiva mais global, começando pelo capítulo dedicado ao pensamento estratégico. E, quando tivermos terminado, podemos repetir o teste de autoavaliação para verificar e reforçar a nossa aprendizagem.

Doing the Right Things Right não é um livro escrito com a intenção de suscitar uma reflexão profunda ou de revelar uma perspetiva inédita. Nesse sentido, não atinge o nível de “filosofia da gestão” e das políticas de empresa que caraterizam grande parte da obra de Peter Drucker. Mas é um livro prático, repleto de ideias e de sugestões práticas sobre o que fazer e como fazer para melhor a eficácia e a eficiência de um gestor.

Alguns leitores torcerão o nariz à atual moda de “cardinalizar” os títulos, como truque para chamar a atenção, que de certa forma está presente nos “3T” e nos 12 domínios. Com efeito, deparamo-nos a cada passo, em títulos de livros, de artigos e de simples posts com coisas como “As 4 razões pelas quais…”, “Os 5 passos para…” ou “As 7 atividades que…”. Os “T” serão apenas três, como defende a autora? E os doze domínios serão aqueles, ou há outros mais indicados? E por que não 9, ou 15?

Na verdade, pouco importa: como o próprio Drucker diria (e outros antes dele), o importante é ser capaz de descobrir a cada momento as “coisas certas” que há que fazer, independentemente de qualquer modelo ou espartilho intelectual.

Imagens: Amazon, The Productivity Pro

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